Jogos Olímpicos, Direitos Humanos e Ambiente
Há que reconhecer o tremendo esforço que a China fez nestes últimos anos para mudar a sua imagem ambiental junto do Ocidente. O encerramento de muitos milhares de fábricas altamente poluentes. Os incentivos para a redução das emissões de dióxido de enxofre. O investimento maciço no controlo da contaminação da água, do solo e do ar. Mas como resolver em escassos anos uma montanha de problemas acumulados nas últimas décadas? E tudo isto com os olhos focados no número mágico: oito-oitooito, ou melhor: 8 de Agosto de 2008, o dia da abertura dos Jogos Olímpicos.
Ainda se se tratasse “apenas” de resolver os problemas antigos... Mas os chineses estão ainda a acordar para a dimensão da catástrofe social que pode estar por detrás dos supostos megabenefícios dos grandes empreendimentos que vão mudar a face da China, e deslocar nos próximos anos centenas de milhões de chineses dos campos para as cidades. Como por exemplo, o da Barragens das Três Gargantas.
Barragem das Três Gargantas, um tremendo risco ambiental?Apesar da deslocação prévia de mais de um milhão de pessoas, mais 4 milhões se seguirão nos próximos dez a quinze anos. A criação do imenso lago obrigou ao abandono e demolição de 115 cidades dentro da área inundável, ao encerramento de 1500 fábricas, à instalação de 150 estações de tratamento de águas residuais e de 170 aterros sanitários e à estabilização geotécnica das encostas, no valor de mil milhões de euros.
Mas com a subida do nível das águas, após o fecho das comportas, os riscos geoambientais mais temidos tornaram-se realidade. A erosão das margens provocou sucessivos escorregamentos de terras (alguns originando ondas com mais de 50 m de altura). A acumulação de sedimentos finos na albufeira, junto à barragem, teve como consequência o aumento da erosão costeira, por perda de capacidade de transporte de sedimentos.
A alteração do regime hidrológico levou à diminuição das reservas de água doce a jusante.
Com a grande retenção de sedimentos e nutrientes na barragem, a qualidade da água deteriorou-se rapidamente, por falta de capacidade de dispersar os poluentes que afluem à albufeira (a somar aos milhões de toneladas de resíduos que ficaram submersos). Seguiu-se a afectação de espécies (como o golfinho do Yangtze, o esturjão do Yangtze e a garça siberiana, bem como a redução dos stocks de peixe e a eutrofização (explosão de algas, mosquitos...).
Mas não é só o Yangtze que está poluído......Mais de 70% dos rios e lagos chineses estão muito poluídos. O lago Tai, na província de Jiangsu, é o 3º maior lago da China, famoso pelas suas cénicas escarpas calcárias. É também fonte de abastecimento da cidade de Wuxi, para vários milhões de habitantes. Em Julho de 2007 um surto de algas levou à suspensão do fornecimento de água. Os trabalhos de despoluição demorarão 5 anos e custarão cerca de 15 milhões de dólares.
Infelizmente, muitos outros exemplos podem ser dados de cidades chinesas onde a vida dos seus habitantes é um verdadeiro inferno:
Lanzhou, onde o Rio Amarelo passa a roxoLanzhou, a capital da setentrional província de Ganzu, com 2 milhões de habitantes, ostenta desde 1998 o título de uma das 10 cidades mais poluídas do mundo, facto que é atribuído à convergência de 3 factores:
elevadas emissões de poluentes industriais, uso do carvão como fonte de energia principal, condições climáticas desfavoráveis (tempestades de areia e seca mais frequentes. Os episódios de poluição do Rio
Amarelo, que abastece de água a cidade, apresentam uma frequência assustadora.
Linfen, a cidade mais poluída do mundoCom quase 5 milhões de habitantes a expansão desenfreada da indústria do carvão gerou a cidade considerada com a pior qualidade de ar do mundo, com incidências altíssimas de problemas respiratórios e de pele e cancro do pulmão. O governo local reconhece a necessidade de fechar de imediato mais de 200 fábricas.
Tianying, a cidade de chumboEsta cidade com cerca de 140.000 habitantes é responsável por metade da produção de chumbo da China. A concentração de chumbo no ar e no solo atinge 10 vezes os valores-limite estabelecidos por lei. São frequentes mal-formações nos recém-nascidos e problemas no crescimento.
Wanshan, a capital do mercúrioA China é conhecida como o país com maiores emissões de mercúrio para a atmosfera, essencialmente proveniente de fundições e combustão do carvão. Devido à exploração e processamento das minas de mercúrio de Wanshan, província de Guizhou, o solo contém níveis de mercúrio 100 a 1000 vezes superiores à média. A produção cessou em 2001 mas 100 milhões de toneladas de resíduos ficaram no terreno à mercê da erosão.
Mas a industrialização forçada não é aceite de ânimo leve pela população dos meios rurais. Aqui e além surgem focos de revolta que leva o governo chinês a repensar algumas medidas, como no caso de Huaxi:
Huaxi, a industrialização do mundo rural em marcha forçadaAté 2001 Huaxi vivia apenas para a agricultura. Com a instalação de 13 fábricas da indústria química pesada, incluindo pesticidas, começaram os problemas: poluição atmosférica, envenenamento dos poços e das colheitas, aumento de incidência de cancros e de abortos espontâneos. Os protestos da população foram crescendo ao ponto de desembocarem num violento motim de mais de 50.000 camponeses. No seguimento o governo local decidiu fechar as fábricas, o que constituiu uma inusitada vitória da vontade popular.
Carlos Costa Presidente do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente.
* Esta coluna é da responsabilidade do GEOTA. Os artigos nela publicados expressam exclusivamente os pontos de vista do autor, não devendo ser interpretados como reflectindo a posição da ONU.
Pode consultar e ler o Boletim do Centro Regional de Informação das Nações Unidas (N.º37) ,
em anexo.