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O GEOTA

Centro Ecológico Educativo do Paul Tornada

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Entrevista à revista Visão
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Resposta conjunta à VISAO de Joao Joanaz de Melo (GEOTA), Eugenio Sequeira (LPN) e Melissa Shinn (Quercus).

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: 10-10-2010

1 – A energia hídrica produzida em grandes barragens pode ser considerada uma energia verde?

Resposta simples: NÃO. Só mesmo por má-fé e desejo de branquera (esverdear) os novos empreendimentos.
As grandes hídricas só podem ser descritas como verdes pelo manto de algas e plantas aquáticas mais ou menos tóxicas que frequentemente se formam pelo fenómeno da eutrofização. Em rios com alguma poluição, as albufeiras agravam significativamente a qualidade da água.
Quando os rios selvagens eram um bem abundante e não havia alternativas viáveis, podia argumentar-se que as barragens eram uma solução interessante para produzir energia.
No contexto presente, isso já não é verdade. As novas barragens têm impactes muito gravosos, tanto ao nível social como ecológico, e afectam ou destroem irreversivelmente valores patrimonais raros ou únicos. Isto é a antítese da sustentabilidade, e dado o grau de destruição, nem faz sentido falar em energias renováveis, muito menos amigas do ambiente.
Ainda por cima, neste momento existem alternativas muito melhores à construção de barragens.
A mais importante é o uso eficiente da energia. Ao contrário do discurso official (p.ex o argumento do governo para contestar o estudo da CE que conclui as barragens do Plano Barragens iam violar a Lei da Agua) , a poupança não é complementar mas sim concorrente com a eficiência: concorrente pelos investimentos num cenário de crise, concorrente ao nível das políticas de incentivos. Os melhores investimentos em poupança de electricidade são 10 (dez) vezes mais baratos por kWh do que investir em barragens.
O programa nacional de barragens apenas permitirá produzir, optimisticamente, 3% da electricidade do País, espatifando irreversivelmente dez rios (4% e doze rios, se somarmos o Baixo Sabor e Ribeiradio, aprovadas antes do PNBEPH). O investimento necessário é na ordem dos 4000 a 5000 M. isto representa apenas 1% do total das necessidades energéticas e não contribui em nada para a redução da dependência do petróleo.
Em comparação, o potencial de poupança de energia é na ordem dos 30% a 50% dos consumos, sendo que 10% dos consumos poderiam ser poupados com alta rentabilidade - um décimo dos investimentos necessários para as barragens, por kWh.

Tb para tomar em consideração que as primeiras barragens foram, como é óbvio escolhendo os locais de menor impacto e de maior eficiência. Com o andar dos tempos, o impacto aumentou (em especial por efeitos cumulativos) e a eficiência foi diminuindo. A micro- geração, com as mini-hídricas que não interrompiam o curso de água dependendo do sítio, poderiam só teriam efeitos positivos. Alguns países como o Reino Unido estão a apostar nestas mini-hídricas.
Quando como a maioria das ultimas barragens, incluindo em especial o Sabor os impactos são enormíssimos:

• Aumento da erosão costeira por redução dos sedimentos transportados • Redução da produtividade dos estuários com efeitos prováveis nas "nurseries" das espécies piscícolas, bem como nos ecossistemas estuarinos • Destruição das ecossistemas ripícolas (galerias, corredores ecológicos, etc.) • Destruição doe Habitas classificados • Destruição da paisagem pois trasforma os rios e ribeiras em tanques, (a não ser barragens a fio de água) onde apenas as espécies exóticas existem e os turistas que as usam são de 3ª , 4ª e 5ª categoria do ponto de vista cultural • Contribuição para a destruição dos solos de melhor qualidade contribuindo para o aumento da carência alimentar e para o empobrecimento das populações que ficaram com as suas terras alagadas, etc

Onde existir a montante agricultura intensiva (hortas, produção de cereais de regadio e em especial horticultura, olival hiper-intensivo, etc) e povoações a eutrofia será inevitável e irá aumentar com as alterações climáticas, havendo libertação de metano que em alguns casos, (não se sabe quais, nem onde) será mais que o dióxido de carbono poupado




2 - Considerando as vantagens e as desvantagens das grandes barragens, para onde pende a balança: seria melhor encontrar formas alternativas de produzir energia ou é possível encontrar forma de construir grandes barragens sem causar males ambientais?

Não é possível construir grandes barragens sem causar graves danos ambientais, nem é posível compensar os danos em espécie e magnitude equivalentes. Todas as novas grandes barragens são por isso inaceitáveis, tendo em conta a sua escassa relevância e a existência de alternativas melhores-

Por outro lado, faz todo o sentido manter (pelo menos no fiuturo próximo) e reequipar as barragens já existentes, pois elas são uma parte importante do mix eléctrico nacional.

As barragens supostamente justificam-se para aumentar a eficiência das eólicas, pois quando há vento, a energia em excesso será armazenada nas barragens , que para tal devem ser 2 (uma barragem e um contra-embalse como no Alqueva e o Pedrogão), sendo esta uma forma de multiplicar a energia das eólicas que seria sempre utilizada, pois quando não existisse ou caísse o vento a barragem descarregava para o contra embalse.

Mas consoante alguns peritos, cerca de metade do actual capacidade hídrica com capacidade reversível é mais do que suficiente para absorver os eventuais excessos de produção instantânea de eólico em qualquer período nomeadamente o nocturno com menor consumo

O governo afirma que não é o caso mas não apresente estudos detalhadas (por menos ao publico) que o comprova. (Ver resposta do governo ao CE sobre o estudo Arcadis).

Repare que tudo depende da localização. O Alqueva não produz energia apenas consome pois a energia consumida a bombar do Pedrogão para o Alqueva é muito mais que a produzida pela mesma água quando corre do Alqueva para o Pedrogão. Como a energia de dia é mais cara e de noite as térmicas não podem parar então o excesso, mais barato é usado para bombar. Para além disso, no caso do Alqueva, a maioria da água de rega tem que ser bombada em média 190 m de altura. Quanta energia é gasta? Ainda por cima a agricultura não pode pagar esse preço. Quem paga?



3 - Falando em termos ambientais, quais as barragens mais prejudiciais?

Todas as novas.
O reequipamento de barragens existentes será sempre mais benigno.
O ambiente que refere é a biodiversidade? Nesta serão as espécies da fauna e da flora aquáticas? Serão as espécies da fauna e da flora afectadas directamente? Será a fragmentação do habitat? Será a paisagem? Será o solo de qualidade com os seus serviços - produção de alimentos, regulação da quantidade e qualidade da água- sumiodouro de carbono , espécies e habitats edáficos? Serão os ecossistema estuarinos e os seus serviços - sumidouro de carbono - nurserie de peixes, produção de moluscos.
As 5 barragens - Padroselos, Alto Tâmega-Vidago, Daivões, Fridão e Gouvãrs causarão um impacto cumulativo no rio Tãmega destruindo-o totalmente.
As Barragens do Sabor e a do Tua liquidam os poucos rios (afluentes do Douro) ainda intocados Repare que o rio Douro ficará com 60 Barragens na sua bacia.
A barragem do Almorol no Tejo irá afectar o troço interrompendo esse troço, o mesmo acontecendo na barragem do Pinhosão no Vouga, interronpendo as migrações
A s Barragens do Tâmega afectam largas áreas protegidas no Alvão e Marão (mais informação abaixo)
Igualmente o Sabor e o Tua em especial, não apenas os efeitos directos, como indirectos de fraccionamento do habitat


4 – Pode dar-me exemplos de espécies afetadas pelas grandes barragens já existentes e de que forma foram afetadas, ou seja, qual a gravidade?

Devido ao barragens existentes - o desaparecimento dos salmões, do sável, da lampreia de muitos dos nossos rios

O desaparecimento do Esturjão no Guadiana com todas as barragens feitas em Espanha,


Com o Alqueva e o Pedrogão estão em risco:


Plantas



• Salix salvifolia ssp. australis (habitat defendido pela Directiva 92/43/CEE) com destruição de 30% da área mundial total.
• Comunidade de Genista polyanthos (Genistetum polyanthi) com destruição de 50% da área desta comunidade em Portugal que corresponde a cerca de 45% da área mundial.
• Azinhal residual (Myrto-Quercetum rotundifoliae) destruição de 50% da área total.
• Espinhal (Asparago-Rhamnetum oleoidis) destruição de 5% da área portuguesa
• Narcissus cavanillesii (=Narcissus humilis) destruição provável de 100% da área nacional, 15% da área total.
• Marsilea batardae (habitat defendido pela Directiva 92/43/CEE) com destruição de 50 a 70% da área nacional e 40 a 60% da área mundial.
• Linaria ricardoi (espécie defendida pela Directiva 92/43/CEE) com destruição provável de 100% -extinção da espécie.


Peixes.

Com o Alqueve e o Pedrogão estão em risco:


•O saramugo -Anaecypris hispanica ( em perigo, Anexo II da Directiva Habitats e existente apenas na Bacia do Guadiana)
•O Barbo intermédio - Barbus steindachneri ( raro. Endemismo do Tejo e do Guadiana)
•Cumba - Barbus comiza ( raro, Anexo II da Directiva Habitats endemismo do Tejo e da Bacia do Guadiana)
Pelo transvase está em risco também a ictifauna do Sado, não só as especies diferentes nos mesmos nichos, mas as mesmas espécies pela mistura genética de espécies separadas há muito.

Mamíferos.


O lince ficou com o seu habitat cortado sendo agora mais difícil a regeneração da sua população.

No rio Tâmega estarão em risco

- afectação de diversas espécies, incluindo afectação dos corredores de passagem do lobo e da integridade do Sítio de Importância Comunitário (adiante SIC) Alvão-Marão e de espécies prioritárias, bem como habitats prioritários aí presentes – relativamente aos 4 (quatro) AH, uma vez que todas as barragens estão ligadas e com um funcionamento dependente.

Mais em detalhe:

- existe um impacte significativo sobre os ecossistemas aquáticos do rio Tâmega que, cumulativamente, com outros projectos, levará à transformação de 107 Km (76%) da extensão deste habitat lêntico;
Plantas
- há destruição de toda a vegetação ripícola existente em 68 Km de cursos de água na variante B ou 92 Km na variante A, sendo esta constituída essencialmente por amial, habitat prioritário 91 E0;
Peixe e bivalves
- desaparece cerca de 73% da área de distribuição das espécies U. delphinus (endemismo ibérico) e A. anatina no rio Tâmega, considerando-se um impacto local e regional muito significativo e significativo a nível nacional, dado que as populações do Tâmega de A. anatina foram consideradas as mais importantes a nível nacional e que o decréscimo populacional de U. delphinus poderá estar a ocorrer noutras bacias, aumentado a importância da conservação das suas populações;
- existe afectação parcial de uma população de M. margaritifera e , no caso da variante A, o desaparecimento de uma das duas melhores populações deste espécie a nível nacional, sendo esta uma espécie ameaçada a nível mundial e para a qual Portugal ainda não designou áreas suficientes para assegurar a sua conservação;
- haverá expansão de bivalve C. fluminea a todas as albufeiras do SET, criando condições para a sua expansão a outras albufeiras e cursos de água, agravando os impactes sobre as espécies de bivalves nativas, situação que se verificará também no SIC Alvão-Marão por colonização do AH Gouvães;

Peixe
- várias espécies de fauna serão significativamente afectadas, desaparecendo da zona ou diminuindo de densidade, como sejam a Truta, o Bordalo, o Escalo,
- as espécies de peixes exóticas expandir-se-ão a todas as albufeiras do SET e cursos de água afluentes aumentando os impactes sobre as populações de peixes nativas, por competição ou predação, incluindo os cursos de águas do SIC Alvão-Marão. Duas das espécies são consideradas invasoras pelo Decreto-Lei n.º 565/99, de 21 de Dezembro, para as quais deveria ser elaborado um plano de controlo e de erradicação;

Amfíbios e mamíferos:
- fauna serão significativamente afectadaso Lagarto-de-água, a Rã-ibérica, a Toupeira-de-água e a Lontra, sendo que várias são espécies protegidas e/ou ameaçadas, com significância a nível local, regional e naiconal;
- será criada uma barreira de conexão das populações da fauna das duas margens do rio Tâmega, com implicações sobre todas as espécies terrestres não voadoras e muito em especial do Lobo. Essa barreira impedirá a conexão do núcleo Peneda-Gerês com o núcleo Alvão-Padrela, contribuindo para a extinção deste último, e impedindo a ligação este-oeste da subpopulação de Lobo a norte do Douro, a mais importante do País, aumentando a sua vulnerabilidade e promovendo a extinção das alcateias mais afastadas dos núcleos fontes que estarão localizadas na Peneda-Gerês e em Montesinho;
- este projecto afecta de uma forma significativa várias áreas com interesse para a conservação como sejam o Sítio Importante para a Toupeira-de-água do rio Tâmega, a Área Prioritária da Conservação do Lagarto-de-água das Serras do Barroso e do Alvão, e o troço da Bacia do rio Tâmega a preservar no âmbito do Plano da Bacia Hidrográfica do Douro;
Outros

- há destruição de uma das duas melhores populações da espécie Maculinea alcon em ambas as variantes e afectação das espécies Coenagrion mercoriale e Oxygastra curtisii (uma libelinha- ver http://www.flickr.com/photos/39280703@N08/5010907943/in/photostream/) , espécies dos anexos da Directiva habitats para as quais Portugal ainda não designou área suficiente para a sua conservação, sendo o SIC Alvão-Marão um dos poucos locais conhecidos da presente de O. Curtisii;




5 – Quais são as melhores alternativas às barragens?

A melhor alternativa será a poupança de energia, a qual irá reduzir de imediato o custo em divisas pela importação de combustíveis, sendo vital a poupança nos transportes.

Neste momento e nos próximos anos, de longe a forma mais barata de obter energia e o maior potencial estão no investimento em USO EFICIENTE. Isto mesmo é reconhecido por todos os especialistas, mas não tem tido qualquer resultado ao nível das políticas.

Repito: estamos a falar de um potencial tecnológico de poupança na ordem dos 50% do total dos consumos! Parte disto é caro, mas parte é barato. Podemos dizer que o potencial técnico-economicamente viável de poupança atinge 20 a 25% dos consumos, se a informação e os incentivos forem adequados, quer para as famílias quer para as empresas e instituições públicas. Tudo isto, repito, com um custo por kWh muito inferior ao das barragens.

As indemnizações compensatórias à EDP já fazem um buraco no orçamento de Estado de 500 M¤/ano (fora a REN e as outras empresas do sector energético). Se estas barragens forem avante, vamos pagá-las caro, e com juros, durante os 70 anos das concessões.

Quanto às eólicas, a situação varia muito de sítio para sítio: nalguns sítios são uma boa solução, noutros têm impactes excessivos (ecológicos e sociais). Têm que ser vistas caso a caso. O mesmo se pode dizer de outras energias renováveis (mini-hídricas, geotermia, biomassa, etc).

No futuro, a forma de electroprodução mais interessante será provavelmente o votovoltaico. É uma tecnologia que está em desenvolvimengo acelerado, e poderá competir com as energias convencionais dentro de meia dúzia de anos. Neste momento deve ser usada em projectos de desenvolvimento e demonstração, pois é demasiado cara (ainda) para um uso em larga escala.

Quantas barragens valeria a redução da velocidade nas auto-estradas para 90, como foi feito nos EUA durante a 1ª crise do petróleo? Quantas barragens valerá a melhoria da eficiência tèrmica dos edifícios? Quantas barragens valeria a opção pelos transportes públicos em vez da opção rodoviária? Quanto o fomento da térmica solar? Quanto seria poupado com a micro-geração, com o armazenamento de água em cisternas para uso directo (lavagem etc.) e pata rega de jardins em vez da água potável? Quanto a recuperação das águas cinzentas para os autoclismos, etc. etc.


 
     
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