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Carta Aberta a um Ministro que se Interessa por Comboios

data
: 13-02-2020

Carta Aberta a um Ministro que se Interessa por Comboios


Senhor Ministro: para reabilitar o sistema ferroviário nacional é preciso alguém que se interesse a valer pela questão, bastante investimento e alguma imaginação para sair do modelo atual, que está esgotado. Conto consigo para o primeiro item, lamento não poder colaborar no segundo, e tenho, para o terceiro, algumas ideias que vou expor por atacado, sujeito que estou a limites de espaço.


Primeira. Uma rede ferroviária quase totalmente arborescente cujo núcleo central está eletrificado e tem sete regiões periféricas não-eletrificadas tem uma exploração muito difícil e dispendiosa. Urge eletrificá-la completamente – o que não deve ser difícil porque até estávamos na disposição de exportar energia para Marrocos por cabo submarino. De caminho, pequenas alterações de exploração parecem bem-vindas: por exemplo, apregoar Sines como porto atlântico fundamental, reclamar nova linha ferroviária para o servir e negar-lhe serviço de passageiros parece bizarro.


Segunda. O serviço regional é melhor desempenhado pela camionagem e pela viatura privada e é o mais difícil de encaixar no figurino ferroviário; este deve ser preferido no longo curso e no suburbano. Grandes distâncias ou grandes massas, são a vocação técnica da ferrovia: quanto mais a respeitarmos, melhor o serviço e maior a adesão dos utilizadores.


Terceira. Transbordos são o ponto fraco de todos os sistemas de transporte mas a realidade física e económica impede que todas as ligações sejam diretas. A rede portuguesa permite ligações de longo curso que, mesmo que não se desloquem a velocidades estonteantes, seriam certamente bem-vindas porque suprimiriam imensos transbordos intermédios. Por exemplo, os comboios que demandam o Porto poderiam, sem qualquer prejuízo funcional, terminar a marcha em Viana do Castelo, Braga, Guimarães e Régua poupando assim milhares de horas-incómodo aos passageiros dessas regiões, sem prejuízo de terceiros.


Quarta.  A estação do Oriente é linda de morrer, foi projetada para um país sem vento e para ser central numa cidade que trabalha mais a Oeste e dorme ainda mais longe. A Estação Central de Lisboa já existe, tem três cais – Sete Rios, Entre Campos e Roma-Areeiro – e mais de 3 quilómetros de comprimento: é um luxo. Quando todos os comboios que vierem do Norte passarem por estas estações e forem terminar mais além – no Rossio, em Alcântara, em Queluz ou no Pragal – são mais uma cabazada de horas-incómodo que desaparecem e uns milhares de carros a menos na cidade. Vale a pena estudar a mudança


Quinta. Uma versão mais audaciosa deste modelo, alongaria algumas circulações a estações terminais mais a Sul – como Évora, Beja, Faro ou Sines – ou mais a Leste – como Guarda, Covilhã, Tomar, Elvas. O argumento, que já ouvi, que poucos passageiros farão esses percursos na íntegra não colhe porque o objetivo é a redução dos tempos mortos e das correspondências, não é encher comboios.


Sexta. O desenho da rede e a estrutura do tráfego parecem recomendar uma exploração baseada em automotoras – unidades triplas elétricas acopláveis seria a unidade fundamental – em regime de circulação de módulo horário.  Este material circulante deverá ser pensado para que o passageiro use o tempo de viagem como tempo de trabalho – como se tenta fazer no automóvel privado, às vezes em infração: o lugar do passageiro deverá, por exemplo, incluir tomadas para smartphone e computador pessoal. O negócio já não é transportar passageiros mas sim transportar o tempo e o espaço de trabalho dos passageiros. No longo curso o comboio-escritório é inevitável; quanto mais cedo nascer, melhor.


Sétima. A linha de Cascais e o Metropolitano de Lisboa são dois sistemas ferroviários que usam corrente contínua e poderiam ser ligados por extensão da linha Amarela do Metro.  Convertendo a bitola da linha de Cascais para bitola standard, usada no Metro, ganhava-se em várias frentes – uma linha Cascais-Odivelas que atravessaria a cidade e retiraria mais carros do seu interior, uma frota conjunta da ordem das duzentas e cinquenta carruagens, um mercado mais rápido para a remodelação de frota que se impõe. A solução para o problema constante da migração quotidiana de cerca de 600.000 pessoas e 370.000 carros só se pode resolver com meios pesados, judiciosamente aplicados, e o campo de manobra é muito reduzido. As estações terminais do lado Oeste do Metropolitano são peças indispensáveis neste processo e não devem ser neutralizadas numa linha circular em que muito poucos acreditam.


Oitava. O facto de pertencermos à Europa e de termos de obedecer às diretivas europeias correlativas não deve fazer esquecer as especificidades incontornáveis da Geografia e da História. Nunca alcançaremos, por exemplo, os valores elevados de utilização de bicicletas que outros países exibem porque não têm a nossa orografia. Portugal é um país periférico, quase diria ultra-periférico e a realidade ferroviária do centro da Europa está a anos-luz da nossa realidade e das nossas necessidades. Por exemplo, termos de construir resguardos de 750 metros para comboios compridos que nunca viremos a ter parece um uso enviesado para os nossos pobres recursos que as gerações vindouras nunca compreenderão.


Nona. A reabilitação do caminho-de-ferro carece de um aliado – o favor do utilizador – e de uma doutrina – a cultura ferroviária. Esta última foi amolgada quando houve que separar a rede e a operação, ficando esta com a pesada dívida; mas a fusão da Estrada com o Carril, que nada impunha, foi o golpe mortal. A Estrada e o Carril têm de se entender, de se respeitar, de colaborar mas nunca fundir porque são culturas diferentes. Sei do que falo porque trabalhei nas duas em tempos diferentes – na CP, primeiro, na JAE, depois


Décima. Em 4 de Julho de 1967, o presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson declarou “Possuímos quase um terço dos caminhos-de-ferro do mundo, quase dois terços dos automóveis do mundo (…)”. Os países que temos como prósperos e desenvolvidos não desmontaram os seus dispositivos ferroviários, antes os especializaram. No mundo descarbonizado que urge começar a desenhar, o papel do caminho-de-ferro é insubstituível.


Tenha um muito bom dia, Senhor Ministro. E peço-lhe que aceite os meus cumprimentos e que me perdoe a perda de tempo que esta carta poderá ter significado. Todavia, tinha de o fazer.

 

Lisboa, Dezembro de 2019

 

Eduardo Zúquete

Engenheiro civil 

 
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