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Perspectiva da
Campanha 2003
Nunca o ambiente foi tão falado. Qual notoriedade do momento,
aparece como notícia em qualquer órgão de
comunicação social, seja ele imprensa escrita ou
falada. Em caso de pesquisa via Internet, a infinidade de sítios com
esta denominação chega a intimidar. E, como numa
espécie de favores em cadeia, o “tempo de
antena” dedicado a esta problemática toca a um vasto
público: entidades variadas, responsáveis, directos
e indirectos, população em geral, entre outros. Todos
têm algo a dizer, denunciar ou questionar. Mas a verdade é que
nunca como hoje, o ambiente, essencialmente o relacionado com a
faixa litoral - porque é deste que se trata neste projecto – se
afigurou tão preocupante. A visão não é pessimista,
os factos falam por si. A título de exemplo refere-se algumas afirmações
do ministro Isaltino Morais, em Maio de 2002, “a água,
os resíduos e o litoral são áreas que carecem
de uma intervenção mais rápida do governo.
(...) no que respeita ao litoral deverá ser elaborada uma
estratégia e uma lei de bases, além da implementação
selectiva dos planos de ordenamento da orla costeira” (Duarte,
2002). Estamos em 2004 e... Interessa realçar aqueles que independentemente, do ambiente
ser a estrela circunstancial, nos bastidores, a sua vida sempre
se pautou por uma preocupação em preservar e cuidar
o litoral; uma questão de filosofia de vida. O que importa é que o resultado vá mais além
da mera obtenção de informação. Num
todo, aqueles a quem compete legislar e fazer cumprir a legislação,
os que denunciam, os que cuidam e mais os outros, reflictam, opinem
e actuem positivamente. A difusão das fragilidades do litoral e da urgente necessidade
em preservá-lo, trouxe os seus frutos: um número
crescente de projectos de sensibilização e educação
ambiental, muitos deles abraçados pelas escolas que os integram
nas áreas curriculares e/ou não curriculares; actividades
vocacionadas para os mais novos – os que vão herdar,
para o melhor e para o pior, direitos e deveres, o futuro do planeta
-; maior investimento por parte das autarquias; entre outros. O Coastwatch é disso exemplo. Ao longo das suas catorze
campanhas a adesão ao projecto é crescente, o número
de participantes não só é mais vasto como
diversificado. Este ano a campanha envolveu um total de 4534 participantes.
Os dados são cada vez mais solicitados por diferentes entidades,
estudantes universitários, jornalistas, etc. E porque não
servirem de resposta à preocupação da investigadora
do projecto SIAM, Conceição Freitas? “(...)
não temos levantamentos da morfologia da Zona Intertidal
numa escala que permita fazer estudos. Já que o estado não
investe na monitorização que era fundamental”. Apesar da crescente preocupação, o litoral está de
ano para ano mais mal tratado. Se a participação
pública é cada vez maior, se a sensibilização
ambiental toca cada vez mais gente, se os planos de protecção
são cada vez mais abrangentes, se a legislação é rigorosa,
o que falha em todo este processo? A quem se deve pedir explicações?
Aqui, como em quase tudo na vida, a culpa parece morrer solteira Todos são unânimes que a fragilidade do litoral
está pelas costuras. Contudo, qual cogumelos, de um momento
para outro os empreendimentos crescem e avançam por áreas
onde nem ao diabo lembra. Claro que lembra aos promotores
e a quem autoriza os seus projectos! E se a terra e as margens não chegarem, vai-se pela ria
adentro, como refere Luísa Schmidt a propósito da
pretensão em instalar um complexo imobiliário na
Ria de Aveiro. Este é um bom exemplo, senão veja-se,
pegando ainda nas palavras da autora: “A Ria é classificada
por inúmeras figuras jurídicas nacionais e internacionais. É reserva
Ecologia Nacional (REN), é Zona de Protecção
Especial (ZPE) no âmbito da directiva das Aves, está abrangida
pela Directiva Habitats, é sítio de Rede Natura 2000.” Porém,
a ameaça de um gigantesco complexo imobiliário pesa
sobre ela. A par continuam as campanhas de sensibilização,
as presidências abertas, e outras que tais, parecendo mostrar
o que é óbvio para todos, a sensibilização é só para
quem já tem sensibilidade ecológica. O grave do panorama da Ria de Aveiro é que este é apenas
um universo estatístico do que acontece ao longo de todo
o litoral. Todos os que querem extrair, a qualquer preço,
riqueza da nossa costa sabem que basta apenas esperar. Guardam-se
os projectos na gaveta e que num altura mais propícia serão
aprovados. A própria legislação da orla costeira
a isso conduz. Uma centena de órgãos, tão
díspares, tem competências sobre tão estreita
faixa. Basta saber procurar, algum há-de aprovar. E depois
segue-se o efeito do dominó, mais empreendimentos, mais
pressão turística, mais erosão, mais poluição,
enfim, a azáfama do costume. Será que não
leram a fábula da galinha dos ovos de ouro? No entanto, convém exaltar, que não se pretende
com este discurso qualquer visão fundamentalista, mas sim
o equilíbrio, ou seja um desenvolvimento ecológico
sustentado. E por muito estranho que pareça, é possível
viver de bem com a natureza, extrair-lhe a sua riqueza sem a esgotar.
A confirmá-lo aqueles investem, criam riqueza no país,
mas não deixam de respeitar o meio ambiente, procurando
minimizar o impacte da actividade humana no litoral. Á beira-mar plantada está também a verdade,
visível apenas para alguns, mas lá está, a
par dos empreendimentos, das grandes obras de engenharia (cujo
papel é travar os erros do passado provocando um erro para
o futuro. Esquecendo-se que “No caso da erosão – como
em tantos outros problemas ambientais – o ser humano é vítima
de uma situação que ajudou a criar” (Garcia,
2004); das marinas e do tudo o mais que tão bem desordenado
ficou no ordenamento da costa. a confirmá-lo os resultados
da campanha coastwatch 2003. 14ª campanha coastwatch revela incoerências ao nível
da gestão costeira. Levou a cabo 800km de costa percorrida
por voluntários das mais variadas zonas do país,
incluindo o arquipélago dos Açores. De todas as áreas em análise, nenhuma foi monitorizada
em pleno, muito embora na região Centro e de Lisboa e Vale
do Tejo a cobertura da faixa costeira seja de 50% nas unidades
abrangidas. É agradável constatar que na ZIC, ainda se assiste
ao predomínio do natural (Rocha/Areia; Arbustos/Pastagem
natural; Dunas), apesar de a costa tender para uma crescente
artificialização. Todavia, tal não impede
que o litoral esteja a salvo da intensa erosão, de que são
exemplo, as constantes obras para área habitacional e/ou infra-estruturas
de transporte. A caracterização das entradas no meio marinho reveste-se
de relativa importância uma vez que permite, de uma forma
empírica, deduzir o estado da água que flúi
para o litoral. Ao verificar que mais de 30% das entradas apresentam Esgoto e/ou Cor
alterada/espuma (parâmetros estes que predominavam também
em 2002), questiona-se o desempenho das autoridades na implementação
da lei, por exemplo, no que diz respeito às descargas ilegais.
Já agora o que dizer do despejo de lixo que aumentou
2% relativamente ao ano anterior? Apesar dos grandes investimentos, efectuados pelas entidades
competentes, ao nível do tratamento de resíduos,
não deixa de ser preocupante constatar que a costa portuguesa
continua a ser um vazadouro dos mais incautos e reflexo da falta
de civismo da população. Independentemente de se
tratar de uma Zona Supratidal ou Intertital, os “monstros” são
despejados à espera que o mar os leve ou que contribuam
para a destruição dos ecossistemas ou mesmo obstrução
da paisagem; facto que não deixará indiferente qualquer
cidadão mais consciente. A erosão marinha, que já em 2002 dominava
nas alusões feitas aos riscos efectivos e ameaças
iminentes, continua a ressaltar ao longo de toda a costa monitorizada,
assim como a pressão turística excessiva ( percepção
dos participantes). A todo o momento parece que a costa portuguesa
vai rebentar pelas costuras. Contudo, de ano para ano lá aparecem
mais umas construções onde parece impossível
que ocorra a algum construtor desenvolver a sua actividade; menos
ainda que alguma autarquia fique indiferente, quer por incúria,
quer por inércia. Tendo em conta as alterações climáticas
e a previsão dum aumento da temperatura com a consequente
subida do nível médio das águas do mar, uma
questão urge: que futuro para os ¾ da população
portuguesa que vive na costa? A campanha coastwatch vem confirmar mais uma vez o que todos
os peritos vêm comentando. Em 8,4% da área coberta
correspondente a 134 unidades, assinala-se a presença de edifícios
em construção. Embora a diminuição
da referência a unidades afectadas seja uma realidade, o
grave da situação é que estes estão “à beira-mar
plantados”, isto é, a uma distância média
de132m da linha de água. Convém aqui lembrar uma voz especialista no assunto (...)
O litoral está intimamente associado à presença
do mar, que é animado de uma série de movimentos,
de entre os quais se salientam as marés e as ondas. É um
espaço de limites variáveis regionalmente, na faixa
de interpenetrarão mar-terra, em permanente mudança,
onde interactuam processos marinhos e continentais, criando sistemas
físicos e biofísicos cujo equilíbrio depende
das diversas combinações das condições
naturais com as induzidas pela acção do Homem (Pereira
2000). A 14ª campanha chegou ao fim, mas o desenvolvimento ecológico
sustentável mais uma vez ficou esquecido. Parece que ninguém
tem patente que “Não herdamos a Terra dos nossos
pais mas pedimo-la emprestada aos nossos filhos”. Nós... por cá continuamos de Olho no Litoral! topo
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